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EM BREVE NOS CINEMAS

Solidão, comédia romântica pop, terror: viva McKee, o jovem mestre


Por João Marcelo F. de Mattos

30/08/2006

 

“Mestre” é palavra que designa excelência, domínio absoluto de um assunto, de um saber. A palavra é associada pelo senso comum com experiência, com longa duração no relacionamento do detentor deste título com o objeto em questão, e não sem razão, pois a quantidade de pessoas promovidas com rapidez a possuidoras de um grau de grandeza no labor de algo, é enorme, e muitas vezes o prosseguimento desta trajetória não sustenta com validez o título.

 

Diretor mais jovem de idade e de número de obras realizadas dentro de “Mestres do Terror”, Lucky McKee confirma tudo acima com “Criatura Maligna”: é cedo demais para saber se ele vai ter uma longa e bela carreira, mas no que já fez demonstra tarimba de alguém que tem rara sensibilidade e rigor na perfeição com que elabora o que faz. Como se fosse um Cameron Crowe (mais experiente como poeta do amor na cultura pop) insuflado por um Tod Browning (uma figura monstruosa, ou “monstruosa”, que personifica os obstáculos para a aceitação social e/ou a plenitude amorosa) constrói sua epopéia meigo-ternurinha de amor sáfico que traz latente uma declaração de desconforto com a dor da solidão, mas também de como o viver uma vida a juntos muito rapidamente pode ser um sobressalto só, pela voracidade íntima dos sentimentos, e também pelas interferências de um mundo que tenta estragar a entrega. Trilha de canções adoráveis comentam e costuram um episódio onde tudo funciona: personagens coadjuvantes perfeitos (o amigo hetero do laboratório, a síndica ranheta, a netinha); diálogos e frases (o primeiro jantar das duas, o hetero atendendo o telefone e rezando em voz alta para ser uma mulher, a discussão feroz no corredor do edifício); o humor das situações (o restaurante esvaziando depois do inseto que os amigos acham na salada e que os fascina como entomologistas, o amigo pedindo detalhes para servir como inspiração masturbatória); a delicadeza das situações (todo o ritmo da primeira noite de amor das duas, as meninas caçando o inseto pelo apartamento); momentos de terror (o acidente, o ataque final).

 

McKee expande os temas e o alcance dos tratamentos do mesmos, do longa que fizera com Angela Bettis (Ida, a personagem principal), “May – Obsessão Assassina” – tem em DVD lançado pela Flashtar; veja - em elaboração visual que se articula dentro de um paradigma de representação que ao mesmo tempo celebra uma orientação de imagem discreta, mas de clara condução da mão de um diretor numa narração que potencializa os significados mais interessantes dentro desse exprimir límpido, sem deixar de ser complexo e instigante – satisfação é sentir isso e depois ouvir qual é a influência principal do cara nos comentários legendados. Notáveis exemplos são a cena em que as meninas assistem TV juntas antes de transarem pela primeira vez, com os cortes suaves aproximando os enquadramentos uma da outra ou ambas, a câmera “paquerando” pelas personagens; e o acidente, no qual um plano traz uma imagem que vai subindo, aparentando um certo acontecimento, quando o que acontece é outra coisa inesperada. Vai de novo uma repetição: ao ver assistir de novo “Criatura” com os comentários é bem legal saber como o próprio McKee pensou tais cenas mais ou menos dessa maneira.

 

Tudo isto sedimentado pelas excepcionais atuações do trio feminino central: Bettis, composta e sublinhando bem a esquisitez carente da sua Ida; a charmosa e linda Erin Brown (mais conhecido pelo pseudônimo Misty Mundae, com o qual já estrelou uma série cultuada de obras “B” como pin-up de fitas de terror), sustentando bem a fúria dupla (o bate-papo de mulher irritada com o acúmulo de afazeres domésticos, a conversa no corredor), e Marcia Bennett, como a síndica (trabalhou com o cineasta no inédito “The Woods”), em trabalho magnífico (repare como ela formata o ritmo da acidez de sua personagem na dicção pausada, em especial quando insulta as meninas por descobrir que elas se amam).

 

Em tempo: lésbicas do mundo, uni-vos! “Criatura Maligna” é um dos filmes mais sáficos já feitos (“May” já enfocava o assunto), no sentido do celebratório de um amor e sem nenhum discurso sobre a condição do homossexualismo feminino ou coisa parecida. Seus dois últimos planos são de uma utopia absoluta.

 

Fecho perfeito para mais uma obra da parceria McKee–Bettis, que já é uma realidade de respeito. E dentro da série “Mestres do Terror”, “Criatura” só fica um pouco atrás de “Pesadelo Mortal”.

 

Extras dos extras (só leia depois de ver o episódio):

 

O material filmado que aparece nesta edição em vários momentos traz o selo da Anchor Bay Entertainment, excelente distribuidora dos EUA especialista em cinema de gênero (policial, terror, suspense, ficção científica, etc). Por lá todos os DVD saíram pela Anchor Bay, e é interessante notar que traziam – assim como as edições da Paris Filmes- material que parece ter sido rodado por uma equipe contratada pelo canal exibidor da série, o Showtime, filmado (conversas com a câmera, etc), e editado de uma maneira bem informal (pausas súbitas para entrevistas aparecendo, etc). Mas com os problemas que surgiram (entrevistados de saco cheio, como Don Coscarelli, discussão com John Carpenter), só dá para pensar que o pessoal da distribuidora decidiu eles mesmo fazerem os extras e não entregar para os responsáveis anteriores.

 

Melhores momentos dos comentários legendados:

 

Ao lado de McKee, Bettis e Jesse Hublik (também parceiro habitual do diretor), a cantora Jay Barnes, da banda Popperatic, que fez algumas das canções da trilha.

 

- O “ator” que aparece na primeira cena no “Brasil” (na verdade, o estacionamento do estúdio), é pai do diretor.

 

- A primeira cena é inspirada na maneira como James Stewart é apresentado em “Janela Indiscreta” (1954), na primeira das muitas vezes em que McKee cita Alfred Hitchcock (vale a pena prestar atenção nestes instantes); diretor quis copiar o modo como o mestre do suspense mostra personagem principal em seu apartamento através de movimentos de câmera que explicam qual é a profissão da pessoa por mostrar fotos, jornal, etc.

 

- O diretor de fotografia, Attila Szalay estudou a iluminação de “Coronel Blimp – Vida e Morte”, do diretor inglês Michael Powell (1943).

 

- Como o primeiro dia de filmagem foi ótimo, tudo transcorreu bem, foi possível dar uma afrouxada no ritmo nos demais e improvisar alguma coisa.

 

- De propósito, de acordo com o pretendido clima de fita de terror dos anos 50, “Criatura” não tem efeitos de computação gráfica, só mecânicos.

 

- Personagem de Bettis no roteiro original era um homem, o que foi modificado para uma mulher. O que não diz nos comentários mas é sabido é o seguinte: McKee queria trabalhar de novo com Bettis, e tinha ficado satisfeito com a maneira como lidou com lesbianismo em “May”; e quem iria dirigir “Criatura” era o lendário sumo imperador do cinema “B”, o lendário e ultra influente produtor, diretor, roteirista, dono de estúdio, Roger Corman; como ele não pôde por problemas de agenda, os chefes da série chamaram o contrário dele, um noviço, e deram liberdade total para que ele modificasse o roteiro.

 

- As tranças que Erin usa na cena do encontro (e que morde com delicada e estudada falsa timidez) foram uma homenagem ao visual das mulheres das fitas de Russ Meyer.

 

- Bettis dá uma sacaneada numa das descrições da cena de amor entre as meninas: “a paixão crepitava”, “ela teve um vislumbre do paraíso”, e McKee assume que era um exagero.

 

- Jay dá detalhes das canções e lembra que ela e o diretor tiveram uma banda juntos na faculdade, a “The Detonauts”. (Brown tem uma também, a Homeward Band).

 

- Diretor aconselha as pessoas a mesmo que não falarem francês a procurar as canções da banda canadense Plywood ¾ na Internet, como “L’Amour”, que toca quando as meninas estão mais felizes. Reclama que o modelo dos créditos rádidos da série não dá espaço para que fossem listadas as várias canções usadas.

 

- Em uma de suas citações à Hitchcock, McKee defende as idéias do mestre inglês, da “bomba debaixo da mesa” e da economia, de só filmar o necessário.

 

- A cena final não estava prevista no roteiro, terminava no close do rosto do monstro avançando sobre Ida /Bettis. O final que foi bolado durante a filmagem foi de propósito para terminar bem, idilicamente. 

 

Bastidores (5 minutos e 7 segundos) – Um clip em que aparecem McKee, Bettis, Hublik, o diretor de fotografia Atila , em cenas ao som de canções e temas instrumentais do tele-filme.

 

Do Papel para a Tela (33 minutos e 24 segundos) – Três páginas do roteiro são exibidas na tela, enquanto escutamos em “off” os diálogos dos atores gravados. Depois são mostrados os bastidores das mesmas com detalhes (inclusive com ângulos diferentes do instante das gravações), e a versão final, isto é, as cenas como elas ficaram no episódio. São elas: Ida e Max (Jess Hublik, outro parceiro habitual de McKee), conversam sobre a natureza do inseto no laboratório; Misty confronta a síndica no corredor do prédio em discussão que termina com a megera caindo de maneira fatal na escada central do prédio; e outra conversa de Ida e Max, a última deles, quando ela se dá conta que Misty foi picada e contaminada.

 

No set com Angela Bettis (Ida Toetter - 7 minutos e 39 segundos) – Depois de elogiar o insetinho verde que contracena com ela no começo, a atriz fala mais sobre a relação profunda de trabalho e amizade com McKee e dá uma declaração interessante: “Se você, como eu, gosta de exagerar um pouco ao interpretar, o terror é ótimo, pois você ir em várias direções diferentes numa perfomance”. O que explica bem suas atuações compostas e magníficas tanto aqui (reparem no uso da voz), como lá em “May”.

 

No set com Erin Brown (Misty Falls – 5 minutos e 32 segundos) – A ruiva atriz (suspiro...) diz que usar a pesada roupa com os efeitos mecânicos a deixou se sentindo um “acidente ferroviário”, ainda mais que só com os desconfortáveis olhos pretos artificiais, ela ficou 10, 12 horas.

 

Trabalhando com o Mestre: Lucky McKee (18 minutos e 59 segundos) – Bettis e Hublik conversam sobre o relacionamento de ambos com McKee e o quê consideram o estilo do diretor. Aparecem cenas de realizações anteriores do diretor, como “May”, a estréia no longa com o para lá de alternativo “All the Cheerleaders Die”, e o ainda inédito “The Woods”. Bettis define muito bem como ele trata os temas de seus filmes de terror com um viés de comédia romântica, fala a respeito de “Roman” (longa ainda não lançado que ela dirigiu, e que o diretor estrela atuando, numa inversão de papéis), diz que interpretou a “voz” da floresta de “The Woods”, aponta a semelhança entre desenhos de McKee preparados para “Criatura” e resultado final. Co-diretor de “All Cheerleaders”, Chris Sivertson também dá depoimento.

 

Entrevista com Brad MacDonald (7 minutos e 46 segundos) – O cara diz como se surpreendeu com a boa relação que tiveram no set os intérprestes Bettis e Hublik com os insetos, e apresenta aquele que mais se parece na vida real com o fictício inseto brasileiro que aterroriza as pessoas no episódio.

 

Sangue, Insetos e Romance: Uma Entrevista com Lucky McKee (Diretor – 15 minutos e 4 segundos) – McKee fala da infância (morava longe de salas, ia ao cinema uma vez por ano), de como passou a gostar de filmes, estudos na universidades, primeiros projetos, obras já prontas. “May” e seu tratado da solidão ele diz ter sido inspirado pela obsessão que tem com “Taxi Driver”, de Martin Scorsese; deseja que o ultra independente “All Cheerleaders” se torne mais público, lamenta que “The Woods” ainda não tenha chegado nos cinemas, ainda mais por ser sua realização que mais o deixou satisfeito em termos criativos.

 

McKee também conta como conheceu a galera de veteranos da série num dos jantares de confraternização, e aí surge uma foto com vários deles reunidos. Curioso notar que aparecem nela Richard Kelly (o jovem diretor do cultuado e sensacional “Donnie Darko”), e Rob Zombie (o roqueiro revelação como diretor de cinema “gore” com “Rejeitados pelo Diabo”, ver crítica no arquivo do site). Como eles não devem participar da segunda temporada de “Mestres do Terror” é torcer para que trabalhem numa hipotética terceira.

 

McKee diz ter escaldo Erin por conhecer ela de um longa do amigo Sivertson, “The Lost” que ele, McKee, produziu; dá uma excelente definição por décadas de “Criatura” (romance dos anos 40 com terror dos 50, etc), e diz como ficou feliz de fazê-lo depois do malogro na relação com um grande estúdio*. Uma excelente entrevista de um diretor talentoso que ainda vai merecer muita atenção.

 

* “The Woods” foi rodado e ficou pronto há três, quatro anos, numa produção do estúdio MGM. O problema é que a Sony adquiriu a empresa, levando o acervo e uma série de produtos (filmes, séries), já prontos, mas que se perderam num limbo, pois a nova mega Sony decidiu deixar trabalhos como este na “geladeira”, por não confiar no potencial comercial dessas obras. O filme chega em DVD nos EUA em outubro depois de ter exibições especiais em festivais de terror. A trama tem semellhança assumida com “Suspiria” (1977), de Dario Argento, e se passa em 1965 num colégio feminino cercado por uma floresta na qual fatos misteriosos começam a apavorar estudantes e professoras.

 

 





Lucky McKee (centro) com os camaradas e parceiros Jesse e Angela





Erin Brown, linda até com esses olhões